terça-feira, 13 de setembro de 2016

Segundo filho – O grande desafio, parte II




A barriga ia crescendo e os medos aumentavam. Os nossos. Os dele também, provavelmente, mas o Bernardo não exteriorizava. Só mexia na barriga quando eu puxava por ele, então resolvi que deveria aproximá-lo da irmã o quanto antes. Chamava-o muitas vezes para mexer na barriga e por o ouvido para “sentir” os movimentos com som. Penso que aí começou a mostrar-se mais à vontade em relação à mana que estava para vir. Mas ainda assim, tudo o que pudesse fazer para chamar a atenção, fazia: chegou a dizer a familiares que sofria de bullying na escola uns dias depois de lhe ter explicado o conceito! Só para terem uma noção. 

Quanto mais a gravidez se aproximava do fim, mais nervoso notávamos o Bernardo. Sentíamos necessidade de lhe mostrar várias vezes ao dia que o amamos incondicionalmente e independentemente de tudo o resto. Depois de ralhar com ele por alguma asneira que fizesse vinha o sentimento de culpa e a lágrima no canto do olho por achar que isso o poderia levar a baixo… Os nossos dias tornaram-se um desafio constante.

E chega finalmente a hora.

Enquanto esperava, contam os presentes, o Bernardo não parava um instante. Completamente elétrico. Eram os nervos camuflados.

A Maria nasceu e é apresentada à família. Estava exausta. A cair de sono acima de tudo, apesar do marido dizer que parecia que não se tinha passado nada comigo (só falta dizer que estava mais linda que nunca). Ainda assim consegui perceber que o Bernardo nem olhava para a bebé, não teve sequer aquela tentação de lhe tocar. A reação dele foi “Quero ir embora. Dói-me a barriga.” Queria abraçá-lo e dar-lhe muitos miminhos mas naquele momento não tinha força nem para questionar aquilo. Além disso toda a gente percebeu que o menino estava demasiado nervoso.

Seguiram-se as visitas no dia seguinte. O Bernardo vinha mais calmo, contente por conhecer a mana. O pai nunca o deixaria dormir acumulando tantas inseguranças e dúvidas – estava bem entregue.


Já em casa… agora sim, começava o desafio maior!


É de conhecimento geral que um recém-nascido ocupa-nos imenso tempo. O primeiro mês é terrível. Começam as cólicas, sonos trocados, noites mal dormidas (ou não dormidas) …. Estávamos em modo zombie. Completamente. Como é que se consegue tratar de um bebé nestas condições: dar mama de duas em duas horas, tratar da casa, alimentarmo-nos, tratarmos da nossa higiene e ainda manter uma criança de sete anos satisfeita?

Um dia, o Bernardo finalmente verbalizou a dúvida que tanto o assombrava: “Mamã gostas mais da mana do que de mim?” Não aguentei e agarrei-me a ele com as lágrimas a caírem-me pela face e respondi; disse-lhe que o amava muito, que ele continuava a ser o meu “bebézão” e que gostava dos dois, claro. Tentamos explicar-lhe que a mana é muito pequenina e que neste momento depende muito da mamã mas isso não quer dizer que tenha deixado de gostar dele.

Houve dias complicados. Ainda os há.

O Bernardo adora a Maria e a Maria adora o Bernardo. Assim que ouve a voz do mano, para tudo! Esboça um sorriso enorme quando o vê e não quer saber de mais ninguém.


O Bernardo ainda quer atenção para ele. Há dias em que nos consegue esgotar e, sem darmos por isso, não reagimos da melhor maneira. Ralhamos. Levantamos a voz. À noite, quando temos um bocadinho de tempo para pensar, vem a sensação de culpa, o arrependimento, o medo que ele tenha ficado sentido e que lhe passem outras coisas pela cabeça.

Apesar de tudo está mais calmo – foram umas férias mais paradas, passou muito tempo em casa o que tornou tudo ainda mais difícil de aguentar (não só para ele). Gosta de ajudar nas tarefas com a mana e nas tarefas domésticas também. Quando a Maria acaba de mamar, o Bernardo pede para brincar um bocado com ela. E brinca. E ela brinca com ele. E falam. E riem. Amam-se incondicionalmente!


Todos os dias somos postos à prova. Por duas crianças. São só crianças.


O papá, o Bernardo e a mamã (2013)

2 comentários:

Diz-nos o que achaste. O teu comentário é sempre bem-vindo.
Obrigada pela visita!